Impressões
Em sua fase atual o artista Douglas Mayer conjuga uma
tendência fantástica a um realismo crítico peculiar
que incorpora características expressionistas, mantendo fortes vínculos
com o desenho de humor. Natural de Ponta Grossa (PR) -com vivência
em várias cidades brasileiras, onde atuou como cartunista-pela qualidade
do seu trabalho, Douglas Mayer goza de renome internacional na área
de desenho de humor. Em 82, é contemplado com o Prêmio Excelência
do "The Thirdy Yomiuri International Cartoun Contest (Tókio,
Japão); em 85 conquista a Mensão Honrosa do Prêmio
Imprensa, no XII Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Tendo
publicado em 78, o livro de humor o "Jugo do Bicho"; já
em 85, em co-autoria com Cláudio Cambé lança o álbum
com 9 gravuras "Dois em Um". Tendo trabalhado como cartunista
na Gazeta do Povo é autor do painel mural deste jornal, bem como
do bar Newspaper, anexo à Casa do Jornalista em Curitiba. Após
viagem de estudos a New York (USA 87) desde seu retorno ao Brasil, vem
se dedicando paralelamente à pintura, como bem o comprovam suas
duas mais recentes exposições individuais.
Douglas Mayer um dos mais criativos cartunista paranaenses
realiza a sua primeira exposição individual intitulada "Jugo
do Bicho", em 77 na Galeria do Centro Cultural Brasil Estados Unidos
(Curitiba), onde já revela singular capacidade de criar personagens
contundentes e hilariantes. Com um humor endiabrado critica a situacão
nacional seja a nível politico como econômico/social. Seu
grafismo ágil e seguro delineia situações risíveis
tendentes ao fantástico nas quais analisa não só as
emoções como as condições às quais é
submetido o ser humano numa sociedade de consumo de um país priférico
como o nosso que, permanentemente, trafega na contramão. O cunho
fantástico/expressionista, somado ao realismo critico, prossegue
nos cartuns apresentados em 80, na mostra "05 Anos de Jornalismo",
no Senac, merecendo o seguinte comentário de Rettamozo: "No
espelho, os vampiros não se refletem. Reflexão, corte e pensar.
Critérios sagrados. No espelho, o que se vê, está virado.
Como se estivesse vindo, daí o dito: enquanto você vai, eu
estou indo de volta. E é esta a linguagem destes desenhos. Vampiros
correm o risco de serem descobertos. Coberto pelo medo, passe adiante,
feche os olhos. Também fiz isso com Edward Munch e Van Gogh, ou
foi só impressão". Já na exposição
"Personalidades", promovida em 86, pela Caixa de Criação
nota se que apesar da permanência de características do desenho
de humor-como o grafismo e o caricato-há um encaminhamento para
a linguagem pictórica, seja através do emprego da tinta acrílica,
seja mediante a procura da ambientação dos retratados às
suas atividades cotidianas. Observa se que, a seguir, a linguagem pictórica
gradativamente adensa-se, sem contudo abrir mão dos valores inerentes
à linguagem gráfica, plena da reflexão crítica,
como bem o demonstra a individual "Bicho,Homem/A Fauna Brasileira"
realizada, em 88 na Galeria Colombo de Piracicaba, onde expõe pinturas
(acrílico sobre duratex). Aprofundando-se nesta sua procura, é
possível comprovar que o artista se serve de uma análise
semantica da realidade-seja a nível existencial como social- para
propor uma mitologia individual. Guardando certo parentesco com artistas
que analisam a comédia humana latino-americana e nacional, seu trabalho
avizinha-se a Antonio Segui, João Câmara, Siron Franco, e
aos desenhos de Cildo Meireles e Barrio. No seu trabalho atual o clima
telúrico da literatura de cordel soma-se à tragicomédia
do cotidiano de Dalton Trevisan. Assim, o casal de noivos transformados
em ícones sobre o bolo; ou o demônio/vampiro que guarda a
nota de dólar que se vê através do portal gótico
entreaberto, parecem saídos das páginas dos contos do escritor
curitibano. Já o homem que voa enquanto o pássaro está
preso na gaiola sugere uma homenagem a Rogério Dias; enquanto que
o rapaz com asas de anjo- enquadrado em um arco ogival -faz alusão
a Raul Cruz, artista curitibano recentemente falecido. Há de se
observar, ainda, que suas pinturas recentes têm afinidades com a
pintura românica da Catalunha, Espanha, (séc. Xl a XIII),
onde as cores são tão importantes quanto a estrutura linear-
sendo que esta última embora forme um arabesco obedece a certa geometrização;
bem comc com o medievalismo presente nas miniaturas dos "Livros de
Horas", também espanhóis. Comumente Douglas Mayer trabalha
sobre campos visuais retangulares, podendo, eventualmente empregar formatos
triangulares. Internamente as composições são bem
estruturadas, em esquemas retangulares e ovais, ou semicurvos. Como acima
comentado apesar da utilização de cores as qualidades gráficas
mantêm-se intactas; sendo que os personagens via de regra mais claros
sobressaem-se sobre fundos mais escuros. Há de se observar, ainda,
a agilidade espacial e as qualidades miméticas de seus personagens
que podem assumir as posturas dos animais ao lado representados; o que
acentua as suas qualidades simbólicas.
Permanece a poética ao erotismo -revestida, é
verdade, de ironia -bem como a acre crítica à situação
nacional seja no gato que incorpra as cores da bandeira e cuja estrutura
faz alusão a monumentos de Brasflia -que pousa ameaçadoramente
sobre um pequeno peixe vermelho, ideograma de Cristo e do povo-; ou na
propria bandeira nacional transformada em espécie de videogame.
Como Goya que nos "Desastres de Guerra" analisa a sua épica,não
há dúvidas que Douglas Mayer transforma os desastres existenciais
e nacionais numa epopéia latino-americana contemporânea.
Adalice Araújo (1993)
O Jugo Do Bicho
No espelho, os vampiros não se refletem. Reflexão,
corte & pensar. Critérios sangrados. No espelho o que se vê,
está virado. Como se estivesse vindo, daí o dito: "enquanto
você vai, eu estou de volta". E é esta a linguagem destes
desenhos. Vampiros correm o risco de serem descobertos. Coberto pelo medo,
passe adiante, feche os olhos. Também fiz o mesmo com Edvard Munch
e Van Gogh, ou foi só impressão?
No impresso, o desenho é o humor. Seu traço
carregado de conteúdo faz a moldura de nossos medos. Extenção
da litografia, o off-set tem a mesma função. Codificar a
informação pela quantidade. Se fazer clara e direta, perder
nas entrelinhas da linearidade as forças interiores. O desenho,
na imprensa, obedece regras de mau gosto e padronização.
Isto é, isto era, porque a manipulação do imprevisível,
fez do desenho de humor informação. Informacão: composição
do que se conhece com o que não se conhece. O imprevisível
é a mídia da espectativa de saber. Olhar no espelho, e não
se negar frente a sua imagem mesmo que doa. Este é o jogo. Jugo
do bicho. Uma Espécie de auto punição, que temos que
passar para atingir o sorriso. O ideal. Só rir, felicidade, Humor,
aperfei suamento. No terminal da palavra humor e início de morte.
Humorte. Assim como: "sem o incomunicável não há
comunicação", é preciso morrer de vergonha para
viver de nossas limitações. Essas as regras do Jugo do Bicho.
O homem mata e come animais. Douglas Mayer nos dá com humor a imagem
refletida. Animal comendo. Seu sonho é uma realidade. Não
dorme à noite. Dorme, como Todos Nós, durante o dia a dia.
"Be a clown". É a proposta, neste jogo ganha quem tiver
maior coragem de assumir a informação. E assinar junto a
declaração de seus direitos. Vamos anotar o sentido histórico
destas grosserias artísticas e seus produtores. O cartum ressurge
em sua forma mais crua e pesada nos momentos de crise. O aspecto crítico
carnal dos desenhos de Douglas Mayer, nos faz revisar, não só
nossas posições espirituais (em cada desenho a pergunta:
"o que construo de beleza, se o que faço é isso?")
mas políticas e econômicas, Sua importancia estética
vai acima de seu comporta
mento ético. Memória viva de Kirchner, Heckel,
Scmidt Retllut, Nolde, Pechstein, Muller. O patético historicamente
assumindo as emoções humanas fundamentais, o mêdo,
a solidão, o ciúme, etc.
Alucinações e visões precisas. Contornos
puros, crueza no sonho. O cartum é o ressurgimento do homem comum
esmagado até pela cultura, palavra que não entende, e Douglas
Mayer é seu representante por enquanto uma promessa, nestes primeiros
trabalhos, mostrados fora de sua mídia. Olhar o mar como anfíbio,
para poder ver dentro e fora.
RETTAMOZO (1978)
Bicho, Homem
No final do Século XIX, quando Miguelzinho Dutra
(1810-1875) estabelece-se em Piracicaba vindo de Itú, tinha início
em Piracicaba um processo de produção artística que
iria atravessar todo o século XX conservando características
próprias e originais. Logo no início do século atual.
Artesãos e Pintores de Igrejas e Artistas Italianos que imigravam
para o Brasil, também estabelecendo-se aqui, consolidam este processo
que só na década de 60 sofreria seu primeiro forte abalo
(em termos de hegemonia em sua concepção do mundo e da arte),
quando passam a soprar ventos renovadores, oriundos sobretudo da Bienal
de São Paulo. E a Escola Acadêmica entrava em seu ocaso e
um novo ciclo começava, sem as características hegemônicas
do anterior, que pode ser caracterizado por uma procura e uma afirmação
de individualidades, o que se traduz numa arte mais livre no qual importa
mais a visão de mundo de cada artista do que os princípios
estéticos de uma Escola.
Neste final dos anos 80, numerosos artistas jovens tem
se fixado em Piracicaba, alguns oriundos daqui mesmo, outros provenientes
de novas correntes migratórias internas, típicas do estágio
a que a cidade atingiu, como importante polo de desenvolvimento no Estado.
Se esta nova geração de artistas deitará raízes
(como aconteceu com seus antecessores) ou conseguirá desenvolver
uma arte de características igualmente hegemônicas, algo que
possa efetivamente ser chamado de "Uma Arte Piracicabana", só
o tempo dirá e sua importancia será apenas relativa, importante
é perceber estes novos estímulos que vão se surgindo,
novas personalidades artísticas que vão se destacando, pois
através delas é que se nota a gestação de uma
nova arte. Nesse sentido merece o devido registro a contribuição
do artista Paranaense Douglas Mayer, cuja série intitulada BICHO,
HOMEM é um eloquente cartão de apresentação.
A obra de Douglas Mayer tem a característica muito moderna de não
ser produto de Atelier. Pelo contrário, ele reflete no plano da
arte os múltiplos envolvimentos do artista com as diferentes mídias
que caracterizam nossa época. Dai a preocupação com
um discurso gráfico e plástico de comunicação
direta e instantânea em que crítica e humor estão mesclados
de maneira a atingir o espectador de forma clara e inequívoca, procurando
uma resposta que vem do emocional, na medida em que seus temas são
uma chamada a nossa consciência ecológica e ao nosso papel,
enquanto indivíduos, nesta forma de relações complexas
da qual depende o equilíbrio da natureza.
J.M. Ferreira = 1991 (1988)
A arte de Douglas Mayer
Daqui a poucos anos, possuir uma tela assinada por Douglas
Mayer signficará ter um patrimônio artístico de preciosa
raridade. Pois Douglas Mayer, finalmente começa a assumir a sua
vocação de artista plástico nato, de talento invulgar,
como se os deuses o tivessem priviliegiado com o toque da genialidade que
ele, Douglas, buscou inutilmente enfrentar. Ninguém consegue, impunemente,
lutar contra uma vocação artística, pois a vocação
interrompida acaba voltando se contra o próprio homem. E essa é
a história humana de DouglasMayer, um artista completo que, por
muitos anos, lutou contra sua arte, enfrentando os deuses e, por isso,
mergulhando no inferno de todas as angúnstias e delírios
de inquietações. Os deuses são cruéis, concedem
a chama artística mas, ao mesmo tempo, exigem a própria alma
de quem a chama privilegiou. Douglas Mayer foi privilegiado com a devoradora
chama da arte, e essa foi a sua sina e o seu martírio, na luta que
travou para afastar-se de um dom que é, também, maldição.
Os artistas são malditos, pois inexoravelmente destinados a conhecer
a fantástica harmonia plástica e sonora do mundo - e, ao
mesmo tempo, conviver com a desarmonia que a tola racionalidade humana
consegue deflagrar. Os artistas são malditos porque têm visão
do céu construído pelos deuses, mas os seus pés pisam
no cotidiano pequenino dos humanos. Douglas Mayer quis lutar contra o seu
destino de artista, de um enorme artista - e conheceu todas as dimensões
do inferno da solidão e das inquetações. Isso foi
bom, isso foi necessário - pois nesse inferno é que Douglas
se purificou, nesse inferno que viveu o doloroso curtimento de si mesmo,
de sua vocação, de seu destino. E, purificado pela dor, deixou
o artista nascer, expandir-se, assumir-se a si mesmo.
Douglas Mayer não é um desconhecido ou um
principiante no mundo das artes plásticas. O Brasil já conhece,
e o reconhecimento do valor de suas obras é testemunho do seu talento
invulgar. O mundo já o conhece, através de telas suas que
já ornam e enriquecem pinacotecas ocidentais e orientais. Piracicaba
já o conhece, nos trabalhos que aqui já foram expostos, em
aquisições que enriquecem pinacotecas púlicas e de
particulares, em prêmios que ele obteve. Agora, no entanto, Piracicaba
deve orgulhar-se de ser privilegiada testemunha do completo nascimento
e da final e total opção de Douglas Mayer para a sua arte.
É o artista maduro, consciente, telúrico, passional, irreverente,
inquieto, inconformado, sensível, atormentado entre o social e o
individual, dividido entre o trágico e o lírico, entre o
doce e o amargo, desesperado entre a vida e a morte, que denuncia, que
profetiza, que anuncia e que se martiriza diante de percepções
escatológicas de hecatombes e de nascimentos. O "BICHO, HOMEM"
de Douglas Mayer comove, angustia, sensibiliza. É um grito denunciador
e uma denúncia gritante. Um protesto e uma esperança, um
lamento e um louvor. São contrastes. Assim como a vida.
Envaideço-me de, no dia-a-dia, participar da explosão
criadora de Douglas Mayer. Orgulho-me egoisticamente de, como piracicabano,
poder ver que, em Piracicaba, a imensa alma artística de Douglas
Mayer se reconcilia com os deuses que Ihe inspiraram a chama e os mistérios
da arte plástica, no milagre de dar vida ao mundo com um pincel.
E, ansioso e angustiado como alguém que assiste a um parto, acompanho
a gravidez artística de Douglas Mayer, fecundado na alma pela beleza,
pela simplicidade, pela força envolvente e imantadora que nasce,
que brota e que transuda na história e da geografia piracicabana.
É esse Douglas Mayer suado de suores sangüineos de uma agoniada
e atormentada arte, que, orgulhosa e vaidosamente, apresento a Piracicaba
minha terra amada, berço e pousada de belezas e sabedoria.
Cecílio Elias Netto